Jantar

Dr. Jeffrey Okeson e esposa à esquerda e meus pais, prof. Dra. Jane Matos e Francisco Sandoval à direita

Está bom, em 1994 eu ainda nem havia entrado para faculdade… Entrei em 1997 e me formei em 2002.  Sendo filho de dentista, obviamente a clínica era a dos meus pais, encabeçada pela minha mãe e mentora, a Dra. Jane Matos.

Para quem não a conhece, ela é uma das embaixadoras da Radiologia Odontológica na Bahia e uma das referências na área no Brasil, que sempre se manteve na vanguarda científica e tecnológica da área.  Em 1994, o centro de Radiologia da Dra. Jane já possuía tomógrafo computadorizado hipocicloidal, que havia sido o segundo equipamento instalado no Brasil e terceiro na América latina. Dois anos antes, em 1992, a clínica já possuía fotografia digital, numa época em que essa tecnologia nem estava disponível  para o grande público. Mais de uma década se passaria, antes da fotografia digital “não-odontológica” começar a aparecer no mercado. Era engraçado ver fotógrafos profissionais ficarem pasmos ao saber que nós já fazíamos isso. Além disso, foi uma das primeiras a utilizar traçados cefalométricos computadorizados e sistema de atendimento rotativo dos pacientes com gerenciamento via software em rede – uma grande novidade na época, visto que nem existia (ou pelo menos não era fácil de encontrar) empresas especializadas em rede, afinal, são mais de 20 anos atrás!!! Méritos do meu pai, Francisco Sandoval, engenheiro, antenado nas tecnologias que rapidamente revolucionavam a odontologia da época.

Dra. Jane Matos e Dr. Jeffrey Okeson numa animada discussão, aqui na nossa clínica em Salvador, sobre os aspectos biopsicossociais das DTM. Ao fundo se vê a tela "ATM" de Hector Valdez, feita sob encomenda pelos meus pais e que retrata o envolvimento com o tema disfunção da ATM desde essa época.

Neste período, a Dra. Jane Matos estava extremamente envolvida com a psicologia e com uma linha terapêutica conhecida como biossíntese, sendo que dentro da odontologia, vinha estudando ATM – articulação temporomandibular (poucos anos depois, isso resultou na tese de doutorado envolvendo repouso mandibular e tomografia da ATM).  Com toda essa bagagem, era comum recebermos visitas de profissionais de várias partes do mundo: radiologistas famosos, engenheiros e muitos professores de radiologia do Brasil estiveram aqui para conhecer o trabalho da Prof. Dra. Jane Matos. Assim, em 1994, por conta de um evento de disfunção temporomandibular (DTM) que ocorreu na Bahia, o renomado professor e autor de diversos artigos e livros de DTM e dor orofacial, o Dr. Jeffrey Okeson, também esteve aqui na clínica.

Como eu já gostava de ATM desde antes de entrar para faculdade de odontologia, os livros do Okeson estavam entre os primeiros que li. O mais interessante é que mesmo naquela época, já era evidente para mim que as premissas da escola biopsicossocial  estavam extremamente equivocadas.

Por exemplo:

1. diagnóstico da “DTM” baseado principalmente em sinais e sintomas, especialmente o sintoma DOR e sua localização anatômica, criando a precária sub-divisão de DTM muscular e DTM articular, como ocorre na classificação do RDC-TMD (agora DC-TMD). Basicamente uma nova roupagem para o mesmo conceito de “síndrome de Costen” da década de 1930 e da “síndrome da dor miofascial da ATM” da década de 1970;

2.  a ideia equivocada de que a DTM desaparece com o tempo pois tem um curso “benigno”;

3.  a ideia de que a DTM é causada por estresse emocional (ok, sabemos que o estresse pode agravar ou até precipitar, mas não é a causa!), que tem como base a teoria da hiperatividade muscular tônica supostamente causada pelo estresse, conceito que desde 1991 já havia sido provado incorreto;

4. a prescrição intensiva de  drogas chamadas de “relaxantes musculares”, em decorrência da ideia da hiperatividade, bem como placas “miorrelaxantes” (do grego: mio = músculo) e muitos psicotrópicos como os antidepressivos e ansiolíticos que fazem a alegria da indústria farmacêutica…

5. tratamentos baseados primariamente em terapia cognitivo comportamental que, se por um lado, é útil como terapia auxiliar, por outro, se torna completamente inapropriada quando se tenta tratar uma artromiopatia temporomandibular, cujos sintomas foram “diagnosticados” como “DTM muscular” (por conta dos problemas mencionados no item 1)…

Por razões como esta, é que desde os tempos de faculdade que já sabia que isso não poderia ser assim e, próximo de me formar (formei em 2002), li um artigo de um dos grandes embaixadores dessa teoria, Charles Greene, que assume oficialmente as falhas da teoria em seu artigo The etiology of temporomandibular disorders: implications for treatment. J Orofac Pain. 2001 Spring;15(2):93-105. Não é à toa que recentemente, o modelo de diagnóstico seguido lá nos EUA começa a exibir uma tentativa de se aproximar do já existente e praticado aqui na América do Sul, pela escola neurofisiológica mensurativa de patologia da ATM do prof. Dr. Jorge A. Learreta!

Se por um lado, já sabemos que não há muito suporte científico para a teoria biopsicossocial, por outro, temos de entender que ela fez parte do processo de evolução do conhecimento científico. Ela foi importante em seu tempo (e ainda é em alguns aspectos), assim como os conhecimentos em neurofisiologia e patologia da ATM são importantes atualmente e, certamente, no futuro, teremos ainda mais reviravoltas no campo da ATM.

Uma coisa é certa, essa visita do Okeson a clínica da minha família em 1994 foi fundamental para eu perceber que realmente tinha de encontrar outro modelo de diagnóstico e tratamento em DTM, o que me levou a uma busca por conhecimento que culminou com o fato de ter conhecido o prof. Learreta, em 2003, que se tornou o meu mentor desde então, viabilizando o meu sonho de montar a Clínica da Dor e Patologia da ATM, que completa agora em 2013, dez anos de alegrias e sucesso!!!

Desejo um Feliz Natal e que 2014 seja um excelente ano para todos!

Marcelo Matos

20 de dezembro de 2013